Cá em casa somos dois, casa essa que não nos cobra uma renda. Herdámos uma casa de família e temos a perfeita noção da imensa sorte que temos por não ter essa despesa nos dias que correm. E, por isso, somos imensamente agradecidos.
Quando falamos de finanças pessoais, a conversa começa quase sempre da mesma forma: poupar mais, aumentar o rendimento e aprender a investir.
Mas raramente paramos para pensar sobre algo que já lá está e nem percebemos — os benefícios que a vida nos dá, que fazem parte do nosso dia a dia e que têm um impacto financeiro, seja ele maior ou menor, mesmo que não se reflitam no extrato da nossa conta bancária. São vantagens silenciosas e que, ainda assim, aliviam o nosso orçamento todos os meses.
Pensa, por exemplo, em quem vive numa casa que ficou de herança de família (o nosso caso). Não pagar uma renda ou prestação ao banco, não é apenas “sorte”, representa uma enorme diferença na forma como se vive. Temos menos pressão no fim do mês, mais capacidade de poupança e, acima de tudo, maior liberdade para tomar decisões sem o peso constante de uma despesa fixa gigante, cuja falha no pagamento pode ter sérias consequências. Para muitas pessoas, isto equivale a receber um salário extra, sem precisar de trabalhar mais horas. E torna-se ainda mais significativo se os rendimentos forem baixos.
O mesmo acontece quando tens uma família presente e disponível para ajudar. Nem sempre essa ajuda vem em forma de dinheiro, mas está lá quando é preciso, num imprevisto, numa refeição que partilham, numa ajuda com os miúdos. Se tudo isso fosse um serviço que tivesses de pagar a outros, o custo seria elevado. Ter essa rede de apoio é, também, um benefício financeiro real, mesmo que raramente seja reconhecido como tal.
Outro exemplo comum é morar perto do trabalho. Pode parecer um detalhe, mas não é. Não precisar de carro, ou usá-lo muito pouco, reduz despesas constantes com combustível, manutenção e estacionamento. Se na vida de um casal, por exemplo, for até necessário apenas um carro, poupa-se ainda no seguro e no IUC. Além disso, poupa-se tempo. Menos deslocações significam menos stress e mais qualidade de vida, algo que o dinheiro, muitas vezes, não pode comprar.
Há ainda os benefícios menos óbvios, mas igualmente importantes. Ter literacia financeira, por exemplo, evita erros que te podem sair caros. Saber comparar, evitar dívidas desnecessárias e controlar impulsos de consumo faz o dinheiro render mais e ser aplicado no que realmente te importa. E não é preciso ter rendimentos muito elevados para se viver bem e ter as finanças equilibradas, o que é preciso é saber gerir o dinheiro.
Depois há as competências do dia a dia (todos nós temos pelo menos uma ou outra), cozinhar em casa, fazer pequenas reparações e resolver outros problemas menores sem a necessidade de chamar sempre um serviço externo. Cada uma dessas capacidades reduz despesas recorrentes, para além de nos tornar mais autónomos. Ao longo dos anos, a poupança acumulada torna-se significativa.
O problema é que muitos de nós ignoram tudo isto. Olhamos apenas para o que está em falta, para aquilo que os outros têm, para o próximo objetivo financeiro antes mesmo de apreciar o que já conseguimos no presente. E acabamos por sentir que estamos sempre atrás, quando, na verdade, já partimos de um lugar privilegiado em vários aspetos.
Há ainda um ponto importante, mais emocional do que financeiro, de que vale a pena falar.
Por vezes, quando reconheces que tens uma vida financeira mais estável, pode surgir quase automaticamente a ideia de que tal não tem a mesma validade, apenas porque existiram benefícios pelo caminho. Como se não pagar renda porque vives numa casa que ficou de herança, ter ajuda da família com os filhos ou porque, por qualquer outro motivo, ter menos despesas fixas, anulasse o esforço, a responsabilidade ou as boas decisões tomadas ao longo do tempo. A dada altura podes sentir que os teus esforços não são tão válidos como os dos teus pares ou sentires-te constrangido em falar sobre a boa fase em que te encontras, porque talvez até penses que não vai “cair bem” a algumas pessoas à tua volta.
Mas a verdade é esta: a não ser que tenhas mesmo nascido rico e não tenhas trabalhado um único dia na vida, usufruir de benefícios não invalida mérito.
Todos partimos de pontos diferentes. Uns têm mais apoio familiar, outros mais oportunidades, outros mais desafios. O que realmente importa não é o ponto de partida, mas a forma como cada pessoa gere o que tem à sua disposição. Ter uma vantagem e desperdiçá-la, também acontece, muita gente o faz. Aproveitá-la com consciência, planeamento e responsabilidade é, por si só, uma escolha válida e inteligente.
E a verdade é que muitos de nós temos benefícios dos quais nem nos apercebemos e tomamos como garantidos. Podes viver perto do trabalho e não precisar de usar carro, podes ter um familiar que ajuda com os miúdos, podes ter uma boa saúde que não te limite em questões de trabalho e novos projetos, podes ter crescido num ambiente onde falar de dinheiro não era um tabu ou nunca teres tido a necessidade de contrair dívidas.
Reconhecer benefícios não deve servir para diminuir ninguém, nem para criar comparações desconfortáveis. Serve apenas para nos dar maior consciência. Sobre o contexto em que vivemos, sobre as decisões que tomamos e sobre o caminho que estamos a construir.
Por isso, se tens algum apoio ou beneficio na tua vida, não há motivo para te sentires menos por isso. Usar bem o que tens não é culpa, é maturidade financeira. E cada pessoa faz o melhor que pode com as ferramentas que a vida lhe deu. Acima de tudo, é importante reconhecer e sermos gratos pela “sorte” que temos.
Já tive esta conversa com várias pessoas nos últimos tempos.
Algumas ficam genuinamente felizes com o que consegui alcançar, outras tendem a focar-se mais nos benefícios e circunstâncias favoráveis que fizeram parte do meu percurso. É compreensível, quando olhamos de fora, é fácil assumir que certos fatores explicam tudo, sobretudo num mundo onde vemos maioritariamente resultados e raramente o caminho até lá.
Vivemos numa era em que as redes sociais amplificam esta perceção. Mostram conquistas, momentos felizes e estabilidade, mas deixam de fora as fases menos visíveis, as tentativas falhadas, as pausas forçadas e os processos longos que não cabem num post.
No meu caso, aprendi a olhar para o meu percurso com tranquilidade. Ter tido uma boa oportunidade de emprego foi algo que valorizei muito, especialmente depois de meses no desemprego à procura e demasiadas candidaturas enviadas. Concluir uma licenciatura aos 35 anos, enquanto trabalhava a tempo inteiro, foi um desafio pessoal que acabou a testar os meus limites quando adicionei uma pós-graduação em simultâneo. Poder viajar hoje com o meu marido é algo que saboreio precisamente porque o fazemos pela primeira vez após muitos anos da nossa relação. E não ter uma renda para pagar é uma circunstância que procuro usar de forma consciente, investindo mais no futuro e numa reforma antecipada quando já sei que a minha saúde não me vai permitir trabalhar até ao limite que a Segurança Social impõe.
Cada percurso é único. Reconhecer os benefícios que existem em cada história não serve para diminuir conquistas, serve apenas para compreender melhor o contexto, as escolhas feitas e o caminho que continua a ser construído.
E tu, já paraste para pensar nos benefícios que a vida te deu?
✍🏻 Podes fazer um exercício simples, imagina quanto te iria custar pagar por tudo o que hoje tens de forma gratuita ou facilitada. A casa, a ajuda, as competências pessoais, o tempo poupado, a tranquilidade mental. Provavelmente, o valor seria alto.
Nas finanças pessoais não se trata apenas de ganhar mais dinheiro. Trata-se de reconhecer, valorizar e aproveitar os benefícios da vida que já tens e usá-los a teu favor como base para construir um futuro mais estável e consciente. Por vezes, o verdadeiro luxo, é não precisar de gastar.
🗒️ Faz uma lista e tenta perceber os valores que terias de gastar nesses pequenos ou grandes benefícios. Provavelmente a resposta vai surpreender-te.
Se gostares deste exercício, e se ainda não leste o livro “O Dinheiro ou a Vida” de Vicki Robin e Joe Dominguez * , é uma leitura que aconselho, pois tem exercícios semelhantes que nos põem a pensar (e é um dos meus favoritos!).
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